Não é que a Solidão me fosse completamente estranha, eu só não me sentia exposta a sua presença de forma tão constante e intensa. Mas de um tempo pra cá parece que ela me escolheu. De uma visita que eu recebia esporadicamente, às vezes por convite, outras de surpresa, parece que agora ela decidiu vir morar comigo.
E eu só soube tarde demais.
Em casa, entre uma e outra coisa que sempre tenho a fazer, às vezes a descubro no canto de um cômodo, sentada, comportada como uma criança que obedece às boas ordens, sem fazer barulho, me olhando como que de espreita, esperando não sei o quê. Invariavelmente paciente.
O que me inquieta.
Eu não sei o que eu poderia ter feito de diferente, se adiantaria eu ter notado sua presença um pouco mais cedo, se nunca deveria tê-la chamado para uma visita. Agora tenho apenas o sentimento de que é tarde demais. Aliás tenho outro: o medo de me acostumar a ela, de não conseguir mais sair sem ela, de estar entre outras pessoas e não haver nenhum momento em que ela não esteja ao meu lado, tocando meu ombro como quem me assegura de sua presença.
Tenho medo de um dia não estranhá-la mais, de adotá-la como minha, de me pegar rindo e conversando com ela. Pior ainda, ouvindo o que ela ainda não me diz.
É difícil, mas eu preciso aprender a ficar sozinha.
Sem ela.
domingo, 22 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Frase de quem?
"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."
Fernando Bernardo Pessoa Soares
Fernando Bernardo Pessoa Soares
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Pré-sentimento
"Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim."
[ Paulo Lemisnki. do livro Distraídos Venceremos]
(Só pra não entrar direto na bagaça)
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim."
[ Paulo Lemisnki. do livro Distraídos Venceremos]
(Só pra não entrar direto na bagaça)
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