domingo, 22 de agosto de 2010

Sem Ela

Não é que a Solidão me fosse completamente estranha, eu só não me sentia exposta a sua presença de forma tão constante e intensa. Mas de um tempo pra cá parece que ela me escolheu. De uma visita que eu recebia esporadicamente, às vezes por convite, outras de surpresa, parece que agora ela decidiu vir morar comigo.
E eu só soube tarde demais.
Em casa, entre uma e outra coisa que sempre tenho a fazer, às vezes a descubro no canto de um cômodo, sentada, comportada como uma criança que obedece às boas ordens, sem fazer barulho, me olhando como que de espreita, esperando não sei o quê. Invariavelmente paciente.
O que me inquieta.
Eu não sei o que eu poderia ter feito de diferente, se adiantaria eu ter notado sua presença um pouco mais cedo, se nunca deveria tê-la chamado para uma visita. Agora tenho apenas o sentimento de que é tarde demais. Aliás tenho outro: o medo de me acostumar a ela, de não conseguir mais sair sem ela, de estar entre outras pessoas e não haver nenhum momento em que ela não esteja ao meu lado, tocando meu ombro como quem me assegura de sua presença.
Tenho medo de um dia não estranhá-la mais, de adotá-la como minha, de me pegar rindo e conversando com ela. Pior ainda, ouvindo o que ela ainda não me diz.
É difícil, mas eu preciso aprender a ficar sozinha.
Sem ela.

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